quinta-feira, setembro 02, 2010

Canção dos dias


Uma vez uma dessas mulheres muito velhas, muito sujas, muito simples e muito sábias que estão a uma degrau acima de nós complicados aprendizes, falou-me para pedir sempre proteção à Mãe Rainha caso viajasse de madrugada. Seus profundos olhos azuis percorreram meu corpo e minha alma e com um toque de suas mãos muito negras pude notar a seriedade de suas palavras.
Então peço todos os dias à Mãe Rainha que me ilumine nessa viagem que é viver e que o Deus supremo sempre guie o carro do meu destino. Pois só ele conhece os buracos de acaso e todos os caminhos por onde correm o meu próprio sangue. Entrego-lhe, sim, todas as minhas escolhas em busca de um átomo de serenidade de seus espinhos.
E que nas madrugadas eu possa cantar a canção do dia
E que os dias possam cantar o que conto
Enquanto conto o que ouvi cantar

terça-feira, agosto 31, 2010

Falta de ar extraída de um artigo de jornal


Em uma época de eleições como a que presenciamos, é natural que se tenha esperança de que o país possa ser considerado desenvolvido em um futuro bem próximo. Esquecem, porém, que bem antes de querer um Brasil mais equilibrado economicamente, deveríamos lutar por um país mais humano. Parece que se esqueceram do que a muito nos ensinaram: o dever de fazer o bem fechando os olhos para as classes sociais e seus poderios econômicos, paras as cores e os credos, para as inimizades ou preconceitos. Perdeu-se no tempo o respeito.
Nesse contexto de desordem em que os indivíduos se sentem superiores aos outros embora pertençam a uma mesma espécie e vivam num mesmo espaço de tempo, morreu uma vida que não havia sequer aberto os olhos ou completado a sua gestação.
Uma adolescente de quatorze anos, grávida de poucos menos de seis meses, foi informada de que o seu bebê estava em uma posição de risco e que assim, seria preciso fazer um parto cesariano de emergência. Imagino então todos os familiares rezando enquanto enxugam as lágrimas de desgosto de uma suposta gravidez precosse e não planejada. Mas o desgosto já passou, tudo o que resta é rezar para que a mãe e a criança sobrevivam.
No fundo, entretanto, todos os que rezam também se preparam: o feto ainda não foi totalmente formado e não tem todos os mecanismos de sobrevivência para enfrentar o mundo desconhecido além-ventre e pode não ter pulmões fortes ao respirar. Ou quem sabe, com um pouco mais de pessimismo, a mãe quase criança pode ter alguma hemorragia de útero resistente de quem ainda teria mais quatro meses para crescer e completar o ciclo natural da vida, e também não resistir.
Mas trata-se de uma família pobre, de uma mãe adolescente e de um hospital público. Os médicos não se mobilizam, a tarefa é arriscada demais e exigiria um maior cuidado e experiência. Talvez por falta de candidatos ao parto, ele é designado a um estudante de médico supervisionado por uma médica professora - de descaso, bem se sabe.
Assim, as mãos estudantes de último período de medicina residentes do hospital público seguram o bisturí e cortam a barriga da matriz. Bastava que essas mãos tivessem estudado melhor o caso e teriam percebido que a cria não estava em posição normal... Rasgam, dividem as carnes, mutilam e atigem o feto nas costas, acertando-lhe a coluna.
Mas trata-se de uma família pobre, de uma mãe adolescente e de um hospital público. O corpo do bebê já sem vida é escondido dentro do próprio hospital e os familiares são impedidos de verem e ficarem com o cadáver que foi morto dentro do próprio casulo de cuidado. Claro a família é desinformada, daqui a alguns dias todos ja esqueceram do ocorrido. A avó da criança contudo, para a surpresa de todos convoca a polícia e tudo é esclarecido e espalhado aos quatro ventos.
Talvez se um médico comprometido tivesse feito a tal operação de parto, a criança estaria viva, e certamente conseguiria de deesenvolver em uma encubadora, lutando para recuperar os quatro meses perdidos... Talvez, se não faltasse amor pelo outro, respeito ou comprometimento com o próximo. Talvez, se o novo médico não confundisse a frieza de sua profissão com falta de caráter, quem sabe...

domingo, agosto 22, 2010

So what?


Vontade [medo] - Mas para que diabos serve um despertador?

sexta-feira, agosto 20, 2010

Suspiro disfarçado de poema


Eu que já estive no limite do tempo
Digo que prefiro os dias normais
Em que não se pensa em quandos
E quando os ondes são os mesmos que ontem
E as barreiras sao palpáveis no impalpável pensamento
Eu que já tentei usar todos os mecanismos
De meu corpo e de minha mente
Digo que prefiro as coisas velhas que sempre são reproduzidas
E que nos conservam a lucidez do contínuo
Mesmo sabendo que bem mais vale a loucura
Que proporciona a descontínua liberdade do não sei
Não sei, mas gosto mais de mim nos dias ruins!

segunda-feira, agosto 09, 2010

Erro de português - O chute


Hoje alguém me falou que eu eescrevo errado. Mas não é nada muito gritante como um "mim" que conjuga verbo ou um "a gente vamos"... é bem pior! Hoje me fizeram perceber que escrevo letra maiúscula no meio das palavras.
E eu bem que tentei argumentar, dizer que estava certo até que decidi dizer a mim mesmo que eu estava errado, com toda a certeza. E como já dizia Cecília, uma letra muda muita coisa... Dizem até que trazia marés de azar se mal colocadas quando formamos os nomes.
E então, preoculpei-me eu. O que seria de mim se colocando uma letra maiúscula que, num conceito geral e mais popular, serve para iniciar as coisas, estaria numa tentativa de começar o que já havia começado ou de terminar quando não havia ainda terminado? Sim porque ao recomeçar, altomaticamente se termina o que vinha antes...
E assim, como ficaria meus dias sem começo meio e fim?
Existem coisas em que temos que acreditar... Mas há outras que são quebra-cabeças que me transformam em suas próprias peças, quebrando-me a cabeça. E há também as letras, que quebram ou constroem o sentido do que existe e também daquilo que não existe ainda, ou nunca haverá de existir. E é por isso - por elas, as letras - que declaro minha própria reforma ortográfica.
E o chute? Minha forma de acordar enquanto escrevo certo em linhas certas com palavras tortas.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Ode à Maria Que Se Perdeu (Parte final)



Quem sabe ainda soa como garotinha, arrancando cabelos das bonecas mudas telepáticas de pensamentos paralíticos. Seus pensamentos - não menos paralíticos - eram agora de uma mulher de 18 anos recém completos que há exatas 12 horas havia saído pelo mundo com algumas roupas e o que sobrara da boneca, a quem proferiu sérias maldições depois de se dar conta de que as bonecas também pesam. Carregava também as lembranças, algo que ninguém poderia modificar - como modificar o que já passou?

Mas o que eram algumas gramas de boneca comparadas ao peso de sua própria existência? talvez por pesar demais esta última, a boneca foi a primeira a se perder.

Poucos sabem (é que não se falam muito sobre orfanatos por ai) mas ao completar a maior idade os órfãos ficam de órfãos de novo de proteção. Para não citar a responsabilidade, o lar, a comida, o governo, todos os abandonam e a instituição com a mesma facilidade trata de os substituir. Os bebês nascem e os órfãos brotam. E brotam como plantas em guerra por um pouco de luz ainda que seja elétrica.

Trabalhar? E no fim do dia... Deitar em que colchão se aquele não era seu. Dormir em que travesseiro se aquele também não lhe pertencia? Que teto? Sua casa não tinha teto, não tinha nada...

É bem verdade, todos tomam o caminho de ida, mas a grande maioria tem o conforto do para onde voltar. Mas trata-se de Maria, e Maria não é grande parte... Sorte ou azar, quem sabe?

Sorte. Ela não sabia o que era azar, sua vida toda fora assim. Então... Sorte! Podia ver as pedras tortas da rua - sem as gramas da boneca e da sua consciência - e sentia-se um pouco livre, um pouco presa no que também não sabia, mas que costumamos chamar de incerteza. E de incertezas passou-se o dia.

Os carros buzinavam para a mulata com cara de fome, lágrimas e nenhum amigo. Alguns gritavam altas expressões, mas não ecoavam pelos neurônios cegos de Maria, o coração não sentia nem pressentia, portanto. Mas se alguem falava palavras disfarçadas de beleza: Susto, dedos médios, Palavrões!

E assim como os faróis acendeu-se a noite e ela se fez Maria entre as três que brilhavam ao longe na escuridão dos céus. Confundida entre os faróis e as estrelhas, acabou por se encontrar no meio termo onde o vento fluido de espírito sopra para todas as direções e pode-se colorir o dia com poeiras distorcidas de palavras.

E assim Maria se perdeu.

E assim nós perdemos Maria.

when we fall in love


We just falling.

sexta-feira, maio 28, 2010

To fall in love


A estupidez mais bonita.

Créditos - Palavras de saída para um filme


O "the End" está ultrapassado, é fato. Vai ver porque é tudo ilusão o que se vê... E que finais não existem. É uma convenção pensar que um dia tudo acaba; se o concreto é aparente, o movimento vai muito mais além do visível.
É bem verdade: O movimento é invisível, não pode ser calculado ou sentido como um besliscão ou um beijo apaixonado. O filme, assim, termina quando nos esquecemos dele. É quando nada mais existe, porque o esquecimento sim é o verdadeiro determinante para a modificação. E quem nunca leu um livro sem final não sabe do que estou falando. Eu falo das entrelinhas, do pedaço de alma doado pelos autores da vida real na empatia de se ver no papel decisivo dizendo as palavras decisivas que precedem o final que não existe.
Assim somos todos protagonistas dos nossos filmes, num movimento alternado de escolhas - Escolhas... Elas são difíceis! E me pego eu pensando nelas numa quinta feira a noite. Ou isto ou aquilo, ou ela não sabe gritar, ou um lamento de um blue, ou clarice Lispector, ou a hora da estrela. A estrela sobe. A estrela desce. E eu ainda pensando em autógrafos! -
Os fins são, pois, uma constante mudança. A metamorfose ambulante são vários pontos continuando. E eu a prefiro do que ter aquela velha frase que nunca termina, misturando as ideias, ainda que me roube o fôlego. As poucas vezes que tive crises de asma me bastaram para dizer: Maior bobeira aquela frase que diz que os melhores momentos da vida são aqueles que te deixaram sem respirar.< O que é isso? Um quebra-cabeça, um bem contra o mal, um nunca me esqueça, um ponto final.

terça-feira, maio 25, 2010

Aquele Sorriso


E de repente: choque, estrondo, fulguração. E depois já não há.

Mas sobra sempre aquele sorriso belo e muito simples - não entendo o porquê de tanta complicação quando se fala sobre. É simples, sim, porque mesmo que não diga o que se quer, basta olhar nos olhos para perceber que os músculos foram calculadamente erguidos com um quê de alegria de um náufrago que contempla águas-vivas.

Elas dançam. Se parar para ouvir, sente-se a música, degusta-se o som dos pulmões aquáticos que se enchem e se esvaziam num contínuo prazer em existir. Elas dançam, e os náufragos afundam.

O ar já não há. Nem destino ou malas de roupas ou conversas prontas. Mas há águas-vivas, há música, há sorriso de pupilas que se enchem e se esvaziam num contínuo prazer em deixar de existir, ainda que aos poucos, há minutos que passam...

E de repente: Epifania. Não há música, não há nada.

Só o sorriso continunou.

domingo, maio 16, 2010

...

A natureza da saudade é ambígua: associa sentimentos de solidão e tristeza – mas, iluminada pela memória, ganha contorno e expressão de felicidade. Quando Garrett a definiu como “delicioso pungir de acerbo espinho”, estava realizando a fusão desses dois aspectos opostos na fórmula feliz de um verso romântico. Em geral, vê-se na saudade o sentimento de separação e distância daquilo que se ama e não se tem. Mas todos os instantes da nossa vida não vão sendo perda, separação e distância? O nosso presente, logo que alcança o futuro, já o transforma em passado. A vida é constante perder. A vida é, pois, uma constante saudade.Há uma saudade queixosa: a que desejaria reter, fixar, possuir. Há uma saudade sábia, que deixa as coisas passarem , como se não passassem. Livrando-as do tempo, salvando a sua essência da eternidade. É a única maneira, aliás, de lhes dar permanência: imortalizá-las em amor . O verdadeiro amor é, paradoxalmente, uma saudade constante, sem egoísmo nenhum. (Cecília Meireles)
.

Faz um tempo eu quis escrever algumas palavras para você viver mais.

Mas palavras não são mágicas e o tempo é muito curto... Aqui estão todas as palavras que eu não escrevi, aprisionadas numa reticencias - É que o infinito também é uma prisão. Estranho, mas a liberdade aprisiona, e é ainda mais cruel que as barreiras físicas.

Guardo para te dar as cartas que eu não escrevo e os versos que eu não te dediquei.

Guardo para te dar aquilo que não pude.

Para você, toda a minha gratidão e lágrimas.

Para você, tudo o que ainda não existe.



quarta-feira, abril 28, 2010

Maria, Maria, luz da noite e estrela do dia (Primeira parte)


Porque as linhas que se interceptam e se cruzam em espirais ate que se quebrem de tão próximas são apenas linhas... E os corações que se partem e se colam e se partem para se colarem de novo, não se partiriam se o objeto amado nao partisse. Se colam enquanto se calam ou por faltarem as palavras ou por ser o silencio a melhor solução, o que dá no mesmo no fim das contas.

Assim pensava ela, mas não sabia porque pensava. O que poderia saber de destino? Tinha uma vaga ideia de amor, pensava ser como as manhãs de domingo comendo pipoca na praça enquanto a missa demorava a comessar e a sua pele escura ardia no sol. Amor de familia, de amigo, de companheiro... não sabia que existia, só sabia que os corações eram frágeis e que as linhas do destino se separavam ou se uniam, mas quem as tecia na teia do universo não sabia... Deus não podia ser costureiro, ora!

E o coração se partia quando chegava as tardes de domingo, as pessoas vinham, viam-na, mas não paravam, não falavam, não riam dos seus sorrisos - não era feia, é bem verdade, mas era negra... Se isso era defeito não sabia, só sabia que era escura como a noite e era na noite que os maus pensamentos vinham: obra do diabo, o pai da escuridão, segundo ouviu um dia. Por isso se odiava ao se olhar no espelho, seu cabelo era crespo como esponja que dá em pé e isso era motivo de riso entre as demais meninas.

Mas nos domingos de manha, como mágica voltava a sorrir, só por ser de manha, só por comer pipoca, só por existir, só por passear! E a tarde vinha, as pessoas chegavam e algumas meninas iam... Outras ficavam por chorar, ou por saudade, ou por inveja, ou por simples desabafo de mais uma semana naquele lugar chamado Orfanato Maria de Lurdes. Seu nome? Maria. Maria de que? Maria ainda, só Maria! As pessoas riam sim, mas iam ver a menina que pintava flores do outro lado e ela ficava encostada esperando alguma alma bondosa.

Solidão, solidão... acumulavam-se os dias! As horas demoravam e ela conversava sozinha enquanto fazia as tarefas que a ela eram estipuladas. Não sabia o porque, mas era a ela que davam as tarefas mais árduas. Era a ela que faltava o travesseiro. Era a ela que chamavam maria escura. Mas o porque não sabia, a vida era um não saber... E nem disso ela sabia, achava que ja tinha vidido muito e que conhecia muitas coisas. Ja sabia, por exemplo, coser e cozinhar, sabia contar nos dedos e rezar o terço quantas vezes fosse preciso!

O que não sabia não era interessante e por isso tratava de esquecer imediatamente. Raramente, porém dava-se o luxo de se questinonar, ou melhor questinoar a boneca que foi dada no ultimo natal por alguem a quem ela nao tinha passado despercebido, mas esse alguém nunca mais havia voltado, e o coraçãosinho de criança se partira... mesmo, mesmo. Por isso descontava na boneca todas as suas angustias, as vezes arrancava os seus cabelos loiros quando ela não respondia.

Mas nunca mais a boneca Clara havia dito uma unica palavra, também ja estava quase careca e os seios de maria escura ja comessavam a aparecer no vestido. Disseram uma vez que menina moça não conseguia família, por isso andava curvada tentando ao máximo esconder seus doze anos, e toda vez que pensava nisso desejava não ter crescido, ou quem sabe não ter nascido... O que salvava suas alegrias era o sabado a noite, quando dormia feliz por ser o ultimo dia antes das horas ensolaradas antes da missa.

E assim, filha de zé ninguém com dona fulana, não tinha beijo de boa noite, nem nunca ouviu um "eu te amo". Sentia um vazio, mas não sabia de que... E vazios são sempre roxos e frios quando não são preenchidos por nada, nem que seja por ódio, mas isso ela também nao conhecia.