quarta-feira, setembro 14, 2011

ALTRUÍSMO PENSADO, NECESSIDADE COMEDIDA


  Enxergar-se nos olhos dos outros é mesmo difícil. E sobretudo quando há traves, ciscos e lentes de contato.
 Algumas pessoas passam, param, pedem. Olham-se com olhos que precisam, falam-me com palavras outras, nas quais figuram acreditar.
  Algumas vezes eu passo, nem paro, tampouco reflito. Depois lembro que aqueles olhos aflitos poderiam ser meus, e que também digo palavras fáceis de mentiras convenientemente prontas...
  Estou certo de que a necessidade faz a ação. Mas o pensamento é que projeta a consequência.
  E são os olhos certos que se entendem - a certeza é eterna.

domingo, agosto 21, 2011

DAS COISAS


    
 
   Existem coisas que se explicam naturalmente; seus diversos significados de fato muito poéticos, encarregam-se de dispensar qualquer palavra. E há quem diga que são essas coisas de mil significados que falam mais que mil palavras juntas ou desconexas, artísticas ou não.
   
     Mas existem coisas que necessitam de entrelinhas claras. Para estas qualquer palavra é pouco, porque qualquer palavra fala delas um pouco. Estas não foram nem são entendidas - por quem lê, quem ignora e quem escreve.
     
      E caso me perguntassem o que é mais importante: os universos que escondem situações ou as situações que escondem universos, minha resposta seria ∞/2.

quinta-feira, agosto 18, 2011

Então veja você mesmo


  A mesma faca que sangra é a que corta e divide o pão. Chora-se de emoção ou de dor, porém, veja: é a mesma lágrima! A ciência cura e mata de uma só vez, protegida por uma única face. Mas, olhe: entre isto e aquilo existem escolhas. E veja o mundo como está!
  Só então veja você mesmo. Decida-se, aventure-se em viver, existir e escolher. Corte sempre o pão, chore o quanto tiver de chorar e cure o que tiver que ser curado. Então olhe para você mais uma vez e estranhe-se.
  Viver é ser capaz de eclodir e implodir constantemente. Entre o inspirar e o expirar está qualquer coisa - e qualquer coisa é mesmo muito.
  Perceba: pão repartido já é pão multiplicado, qualquer lágrima é dádiva para qualquer coisa, e a cura para todos os males é respirar a garantia de que todos respirem. E garanta a pacificidade de um sorriso em qualquer boca.
  Então seja você mesmo.

sábado, agosto 13, 2011

QUATRO OLHOS - final


Nenhum amor de bolso é decisivo. E nenhum amor desesperado acontece de fato.

Verdade seja dita: Simplicidade era, para o Calendário, um amor líquido, de bolso. Daqueles que derretem ainda mais quando faz sol, e escorrem como suor pelo corpo quente... Vocês não sabem o quanto é difícil guardar as coisas simples.  E os bolsos furam.

Do mesmo modo, e de um modo diferente, o Calendário era, para a Simplicade, um amor pulsante, ideal, antigo. Bem se sabe, platonismos e exageros não acontecem  porque se tornam o que há de mais importante na vida. A própria vida, então, se encarrega de que não aconteçam senão no mundo ideias.

Mesmo assim, o amor, sem predicativos, aconteceu mais uma vez entre os jovens.  Ela estava de férias na casa do Calendário em Pequenograndópoles. Os dois se divertiam sempre que possível. Lavavam a louça juntos, passeavam e compravam pão. Coisa de primos ou irmãos -duas coisas que quase não eram.
Simplicidade, que achava aquilo tudo fantástico demais, não hesitou em dizer sim quando o Calendário lhe chamou para ir ao cinema.

E os dois foram como duas folhas que se deixam carregar uma pela outra em meio ao vento. Lembraram, com muito pudor, dos beijos que de quatro olhos deram.
- Você, logo depois que foi embora, começou a namorar com aquela menina...
- Mentira!
-Foi sim. E o que mais me doeu foi saber que você tinha ido sem me dar um beijo de mais nunca.
Calendário tinha pavor de mais nuncas, como todo ser vivo que se preze.  Mas naquele mesmo dia, durante o filme, eles deram mais um beijo, sem nenhum olho. Apenas dois que logo se abriram.

Simplicidade voltou para sua terra, e durante um mês mais ou menos cobrou as fotos da viagem ao menino. Mas calendário era um ser vivo, apenas, e colocava todos os empecilhos possíveis para olhar em profundidade para o que quer que fosse. Pensou que revelar as fotos lhe tomaria muito tempo, e quando tentou o computador estava quebrado. É verdade que isso não é desculpa, mas ele era só um ser vivo. Tecnologia é para as máquinas.

Os dois então se encontraram mais uma outra vez em uma festinha de bairro. Ele com dor de cabeça, ela muito bonita.

Mas foi na véspera de um carnaval, com uma orquestra de frevo, que os dois se viram para mais nunca. Ela estava estranha, ele namorando outra.

Poderia dizer que ela sorriu e o abraçou, depois quis passear com outro homem perto do menino, mas não seria de todo verdadeiro. 

Acontece que meses depois, uma série de mentiras encontraram o Calendário em uma certa tarde.A primeira notícia foi: Simplicidade estava muito mal, hospitalizada. A segunda tratava da gravidade do seu estado. A causa ninguém sabia, mas as horas eram poucas.

A primeira verdade, ainda eufêmica, foi noturna. Ela estava morta desde a noite anterior. Foi morta e pronto. Os detalhes são tantos e tão controversos. São tantos e tão poucos. Carecem de provas porque Simplicidade carecia de dinheiro e de influencias. Alguns dizem que ela sofreu abuso, e que de um tiro só, a poucos metros de casa, foi morta. Sem gritos, sem nada.

Que céu é esse que agora é vermelho? Que mundo é esse em que os anjos são mortos dentro das próprias nuvens?

As lágrimas dele são hoje mais salgadas. Dizem que um pacote de fotografias foi encontrado em uma lápide de azulejos desiguais que não tem nome, nem foto, só um endereço: mais uma entre tantas, misturadas, no cemitério dos que carecem. E padecem. Apenas.

terça-feira, julho 26, 2011

É DE AMOR E DE PAZ QUE VIVE O HOMEM


Vez ou outra, com cada sorriso rápido que recebo, percebo e aprendo um significado universal e único. E todos os olhares sinceros me ensinam que não há nada mais nobre que o ato de se doar; de se entregar ao vento das próprias necessidades e de se unir também às necessidades que não me pertencem.

Não há nada mais nobre do que compartilhar as necessidades, como se todas fossem suas, e todas uma. Com um só desejo que é o espírito satisfeito.

Depois de tudo o que vi e ouvi por esses dias, eu amo todos os sorrisos como se fossem meus; amo toda a fome, como se já não tivesse saciado o meu estômago; amo todas as cáries, e por isso sou flúor; amo todas as lágrimas como se fossem cachoeiras e todas as sirenes como se fossem sinfonias.

Em alguma ladeira, com algum sorriso, iluminado por qualquer hora, alguém me ensinou que devo amar qualquer pessoa, porque em cada uma reside escondido a beleza infinita do Jesus abandonado.

segunda-feira, julho 18, 2011

A arte de traduzir-se em foto


Eu quero o olhar minucioso do fotógrafo. Aquele que calcula os ângulos, mede a luminosidade e em um clique certo, sob um foco certo, capta um segundo de beleza. Aquele mesmo que os olhos nus registram, mas que se perde em qualquer espaço entre a retina e o nervo óptico.

O olhar do fotógrafo revela o que o leigo não vê. Imprime sentimento e coisas mínimas em minimalismos sentimentais.

E uma foto tirada é um novo mundo criado. É quase um recorte, ou uma colagem de frases de opinião.

Mas se tivesse fotografia nos olhos, olharia somente para as pessoas. Então recortaria seus sorrisos e criaria mundos com os seus olhos. E todas em preto-e-branco como nuvens em céu nublado.

segunda-feira, julho 11, 2011

1+ 1 pode não ser dois




Sonho + Sonho continua sendo sonho, apenas. E as pessoas não se somam – misturam-se quando entrelaçam os dedos das mãos.

Aquilo que só existe no campo das idéias está fadado a morrer no primeiro suspiro. Para estar vivo é preciso que se queira com todas as forças, o resto é bobagem astrológica.

Não digo, porém, que é impossível ser dois. Mas difícil mesmo é 1+1 ser um só. Ai sim existe infinito, trilhares de algarismos, universo de possibilidades e pensamentos que não se escrevem.

quinta-feira, junho 30, 2011

E POR FALAR EM DRUMMOND


Dia desses perguntaram-me: “Se pudesse ser qualquer pessoa, viva ou morta, quem seria?” E eu respondi. Não digo que foi no calor do momento porque estava chovendo e aqui no Nordeste quando chove as pessoas sentem frio. Também não foi nenhuma surpresa, dado a freqüência com que perguntas desse tipo são feitas... Surpreendeu-me a minha resposta!

Quem eu queria ser? Muito fácil! Eu queria ser aquele moleque frustrado com o sorvete de abacaxi, que mais parecia uma sombra gelada de qualquer outra fruta que havia sido madura a mais ou menos três anos atrás.

Eu seria aquele moço meio torto, quase morto, o gauche da vida. E então teria pedras no meio dos caminhos, Josés para se perguntar as horas, ou simplesmente dizer: “E agora?”. Teria um coração tão grande quanto o mundo ou seria eu Raimundos sem solução!

Poderia então escrever “Moça, flor, email” e nunca ser tão óbvio ou finitamente preso, em finais de ponto e vírgula. Se pudesse ser, quem eu seria? O Carlos. Não precisava nem ser Drummond de Andrade.

E pensando bem, eu já sou gauche, sou meio torto, sou quase morto, mas sou Gustavo. Será que precisa ser Nunes Monteiro?

segunda-feira, junho 27, 2011

LIBERDADE E OUTROS VÍCIOS


Desconfio de que esteja reforçando o meu lado subjetivo a cada letra que por aqui se escreve. Desconfio também de que quebro assim todas as regras ou diretrizes que supostamente eu deveria seguir; livros dizem: “Objetividade é essencial” – mas está longe de ser essência.

Acostumei-me eu a ser fragrância, desconsiderando todos os elementos químicos que meticulosamente deveriam ser combinados. Perfumes feitos fedem. E também fedem os seres humanos, burgueses ou não. Apenas fui sendo fragrância pela livre intuição, essencialmente subjetiva e quase enigmática – eufemismo para quase nunca entendida.

Desconsiderei, portanto, que assim como o poder deve ser controlado pelo poder, a liberdade deve ser controlada por aquilo que é verdadeiramente livre: a própria liberdade, dom do Espírito, e só ela. Sou livre para mentir pensamentos, mas não posso deixar de assim proclamá-los. Eu minto verdadeiramente, depois minto que não era verdade, para depois mentir que me esqueci das mentiras e das verdades inteiras.

E os sentimentos, as idéias e as pessoas são passíveis de recriação, que também é uma forma de mentira. Criar, recriar, mentir, descobrir é ser livre. E objetividade ou subjetividade é uma questão dicotômica demais para toda essa liberdade que agora percebo. E eu confesso que detesto a falsa simplicidade das coisas dicotômicas ou a bipolaridade das pessoas simplistas – que melhor seriam descritas se fossem descobertas todas as suas inseguranças, que nada mais são do que suspiros sem liberdade.

Penso que o que falo pouco ou muito pouco é de interesse geral da nação, mas acho que tanto a insegurança das pessoas quanto as questões – só – dialéticas são apenas formas de controlar o incontrolável: os possíveis desdobramentos, também chamados de conseqüências ou bilhetes do destino. Os bilhetes, as pessoas e os pensamentos devem ser livres, por essência.

E a essência livre é o mais puro dos perfumes.

segunda-feira, junho 06, 2011

MEUS DIAS LINDOS (Porque Drummond, filho de uma mãe, já escreveu os dias lindos sem possessividade)



Tem dias que eu acordo e vejo notas musicais penduradas nas núvens. São dias realmentente muito lindos! É como se todos os olhares fossem metade bom dia, metade tranquilidade. E o remelexo quase bruto do ônibus, uma dança cósmica de batimentos cardíacos propagados pelos sete universos. As mãos que me pedem esmola parecem plumas, e quase dá para sentir o sorriso dos dedos para cada centavo que tilinta quando é fortemente agarrado.

É nesses dias que as piadas são absurdamente engraçadas – E mesmo as coisas mais sérias. É quando o riso não é transgressor, nem progressista, porque antes de ser riso é sorriso, identificação, juventude. Nos dias de notas musicais fáceis, a identidade é tão completa que nem a dúvida duvida. E os pássaros também cantam sorte em todos os fios elétricos da cidade. E se chove é uma sinfonia sintonizada de pessoas que compartilham guarda-chuvas.

Mas, se me pergunta, no fim desses dias o que eu ganho? Sono, oras! Dias lindos não se acumulam. E só são lindos porque passam, quase que simplesmente...

quinta-feira, maio 26, 2011

Contraindicado para os que não lêem seres humanos



Se existem pessoas diferentes é porque existem diferenças. E elas são simbolicamente anteriores a qualquer indivíduo – que se conheça, pelo menos.

Genética, Biologia, Sociologia, Economia, Bulimia, Anemia, Apatia? Não. As diferenças de caráter excludente são primeiras impressões. E são só isso! Quando se mergulha no outro, as semelhanças se tornam nítidas: mesmos sonhos, mesmos medos, mesmos sorrisos – diferentes ângulos, quem sabe... Clichês à parte, basta enxergar a semelhança “Ser Humano” para metade das diferenças parecerem mínimas, quase imperceptíveis.

É então que, passadas as surpresas do novo, jogar o jogo da relevância se torna necessário. O que é relevante? Beleza, inteligência? Etiqueta, inteligência? Carteira, inteligência? Sobrenome ou inteligência?

Têm coisas que se resolvem com oportunidade. Para outras existe maquiagem! E assim o mundo, cheio de pernas, anda. A “aurora é coletiva”, e “tudo marcha para a arquitetura perfeita”. Pedra ao lado de pedra – são mãos que se balançam.

E se por ti persistirem os olhares tortos, a bula deverá ser consultada. Não aquela de letras miúdas... A que se esconde em qualquer lugar perto do intestino e que grita todos os sentidos e contraindicações de que somos feitos.

terça-feira, maio 24, 2011

É COMPLICADO COMPLICAR-SE


Reprovei na anatomia dos sonhos.
Não sou muito bom em dissecar forma, separar estrutura de sentido, estudar o átomo e esquecer-se das ondas.
Ondas de mar ou de luz também me dizem respeito.
Sou infravermelho, raio-x, tsunami.

Reprovei pelo não entendimento-
Do sonho, do sentido, das minhas próprias vísceras.
Vidas de olhos e de vísceras inteiras ainda me dizem respeito.
Sou espera, promessa, cochilo breve.

E o espelho diz:
Entre as coxias e o palco há um espaço ridículo,
De homens e de olhos tortos sem refletores!

Mas acende-se um fósforo na alma e pronto: sorriso furta-cor.

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