segunda-feira, maio 09, 2011

A MORTE DA BEZERRA ME INTERESSA


Nos dias muito claros, de pensamentos e nuvens brancas, qualquer movimento de folhas verdes – ou secas, que sejam – me diz respeito. É quando um cochicho de olhos semiabertos é quase tão real quanto a Teoria da Relatividade... Embora ache que há uma conspiração em cada sussuro.

O que não tem importância é quase tão divertido quanto abrir a boca enquanto se toma um banho de chuva – mesmo que não se beba um só gole d´água. E a morte da bezerra é como a pedra no meio do caminho que foi um dia notada por alguém sem destino. Não a grande pedra. Não aquela pedra. É a pedra chutada, atirada contra o pássaro, esquecida.

A morte da bezerra é a morte para o óbvio.



Obviamente!


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terça-feira, abril 12, 2011

SORRIR É UM ATO COMPLICADO


De uns tempos para cá ser feliz é tão obrigatório... Faz uns anos que o sorriso não é mais só expressão, é também mercadoria, produto – da pasta de dente, do condomíneo de casas, do carro zero kilômetros, do refrigerante vermelho e preto. As pessoas, assim como eu, são empurradas ao ato de sorrir, não importa o quão tristes ou apáticas estejam.

Mas o problema não é sorrir quando não se tem vontade, é sorrir quando se quer sorrir. Com quantos olhos se diferencia os que sorriem mesmo de felicidade? E os que usam óculos, coitados? Janelas da alma com vidro de proteção.

Se pudesse deixar algum aviso à sociedade sorriso de que sorrindo faço parte, diria: profundidade é lei – não importa se tu és riso alegre ou lágrima. Será que a verdade também vende um milhão de cópias?

domingo, abril 10, 2011

QUATRO OLHOS - parte III



Um, dois, três, quatro, cinco, escondiam-se todos e os dois sempre juntos. Um amor de bananeiras, mangueiras e dois meses de risos e promessas tão curtas quanto a vida parecia ser – e era. Final de férias, o calendário voltou para Pequenograndópoles.

E ele era vulnerável, perdia folhas, chegavam outras. Então, reencontrou alguém que não via a seis meses e também se juntaram em beijos de quatro olhos. Mas quando ele voltava às proximidas da terra de leite e mel e via Simplicidade em sua beleza quase infantil de frases gramaticalmente livres, percebia que já nao eram mais um – e que deixaram de ser sem nenhum aviso prévio.

Eles conversavam sobre quase tudo, e depois de dois CDs que o calendário fez questão de entregar à moça, seus tios assumiram que eram dois, heterogeniamente quebrados. Para vê-la então, teria que pedalar até as núvens altas ou mandar um recado via alguém que passeava em carroças de burro. Mas calendário era preguiça, ou amor a outras pétalas agora.

Foi-se um ano, e em Pequenograndópoles, a Rosa Urbana – de sobrenome, sim senhor – com quem juntava os olhos, estava fora de si desde uns tempos (ou quem sabe era ele, tanto faz!). Encurralou-o. Foi-se um ano. A rosa saiu ferida. O calendário sem algumas páginas. E quando parou o tempo, o Calendário quase parou, não fosse Simplicidade para lembrar-lhe que os dias independem das horas e que ele deveria viver mais de palavras e não apenas dos números. Não raro, o relógio se perdia, sem querer, ou as horas eram trocadas como em mágica nos pulsos do garoto. Ele nao gostava dos números... Ficava mesmo feliz quando liam a parte de trás de todas as suas folhas. O seu lado B. Simpatias, dias de santo e de trabalhador para alguns, um pouco míopes: segredo.

E agora então... Longe de mim querer encurtar a história, exaltar ou diminuir partes. Afinal, trata-se de pessoas! E as pessoas são bastante complicadas. Talvez, por isso, não tenho melhor maneira de mostrar-lhes o que aconteceu, senão com elas, as reticências.

...

Entenda-as porém como um ponto de interrogação, uma icógnita,ou um imenso espaço em branco. Ou melhor, apenas um imenso espaço. Não sei como recomeço, pois. Se fosse eu Clarice , e tivesse todas as folhes de liz do peito voltadas para a inteligência criativa que beira a exentricidade, poderia também começar com uma vírgula. Uma pequena pausa depois de tudo o que foi dito naqueles três pontos alinhados no papel. Mas não a sou.

E como também não sou Cecília poderia utilizar-me das aspas: “O amor é uma saudade constante, sem egoísmo nenhum”. E o calendário já não sabia o que amava, se era ao próprio amor, à saudade constante de trilhares de coisas juntas, ou ao egoísmo que não tinha. Amava sim, mas a sua própria existência. Passara dias sem ar com injeções de datas em suas folhas em branco. Mas era um calendário metalinguístico. Dava ao papel em branco de que era feito, a branquidão que se passava em seu conjunto inteiro.

sexta-feira, março 18, 2011

O panorama, o grito, a identidade


No retroprojetor diversas imagens passam como flashes quase instantâneos e subliminares. Há átomos radioativos que viajam com o vento; o mercúrio sobe e atinge o ponto máximo de um termômetro antigo; a água devora e tritura todo um continente; o limão triturado com águas (mineral e ardente) dentro de um liquidificador de bar; é o cantor que protesta, a artista que se despe, a Monalisa que chora.

E então o grito que grita de uma garganta negra; a pele negra ensaguentada; a pele ensaguentada no mercado; tem poeira na América Central e placas tectônicas; tem secadores e ar condicionados; mas há um ventilador e moscas. E há um rio que seca, e há um rio de bochecha e sal. Pílulas, pílulas, xarope. armas, pneus.

Milhares de pessoas espremidas; metrô, cadeia, fila para fila (de comida, de cinema, hospital). Livros e mais livros: traças. Downloads. Dinheiro. Praia. Olho multicolor; foto 3x4.

E os olhos da plateia como vagalumes tontos ao meio-dia. Mas o que é que eu penso agora? Alguém viu minha carteirinha?

quarta-feira, março 16, 2011

EU AMO NÓS: AS PALAVRAS E AS LETRAS


Mas já que se há de escrever
Que ao menos não se esqueça das inspirações involuntárias ou provocadas;
Quando se pensa em ar e pulmão,
Em vida, em palavra e poesia,
Que ao menos não se oprima com as palavras
As opiniões cotidianas
Que são peito, garra e verdade!
Relatividas, relativididas;
Conhecimento ou desconhecimento
A quem muitos chamam ignorância.

Que ao menos o que se há de escrever seja digno de ser dito, numa prisão que é um verso, ou na liberdade que é a falta de pontuação. Que se escreva sobre os meteoros e cometas do espaço que caem na inércia do tempo, ou de nós mesmos que movimentamos o tempo e a própria vida. Mas que antes de tudo se escreva. Nem que seja sobre o que escrever já que se há de escrever.

E que antes de tudo se escreva
A si mesmo,
Assim mesmo.
Escrevo – logo existo.

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

QUATRO OLHOS - parte II


E nesse mundo cubículo em que os dias são instantâneos tal qual Doril ou benegripe, é comum que reine o tédio de fazer trilhões de coisas ao mesmo pequeno espaço de um segundo. São milhares e tão poucas! Tão poucas, tão nada...

Mas existem espaços que transcendem os 360º do relógio. Existem lugares em que há tantas coisas e pode-se contemplá-las em um único fechar de cílios sem que se perca qualquer detalhe. E mesmo assim, nesses lugares também reina o tédio em determinadas épocas. São tantas coisas e tão milhares! Tão tantas, tão tudo...

E naquele quintal de várias coisas o tédio vinha constantemente tentar cortar a cerca de arame farpado que cercava o imenso pomar de mangas fumegantes como estrelas caídas no chão de folha seca. O jovem sem nome, ainda, às vezes segurava dois ou tres arames para que a passagem do sujeito fosse mais fácil. Afinal, não se deve deprezar nenhuma companhia. E o tédio de vez em quando vai bem a calhar- Não sabe jogar xadrez, é verdade. Mas quem disse que o menino sabia?

E as rodas da bicicleta rodavam e ele perdia partes. Até que chegou a alegria em forma de recado: Simplicidade viera vê-lo, estava na igrejinha.

E na praça, no meio da missa quase uma premissa de história mal compreendida: Um diálogo (que vagamente será representado).
-Calendário, soube que foi na minha casa!
Sim, calendário. Este era seu nome, que não poderia ser dito por outra pessoa senão ela.
-Fui sim, mas você não estava lá. Aquela era sua vó?
-Era. Ela disse que ficou tão nervosa que entregou a minha toalha de banho para você enxugar as mãos sem querer.
Simplicidade estava bonita. Cabelos grandes de um loiro metálico bruto, natural; sardas que desapareciam; batom muito ralo e brilhoso nos lábios.

E foram tantos risos... Um fotógrafo que passava na festinha santa de cordões de luz tirou uma foto dos dois em um banco de cimento, e depois cobrou muito caro por duas 3 por 4: uma para cada um, como fez questão a moça de sorriso largo.

Quem diria: um Calendário e a Simplicidade. Só saem juntos em foto porque estavam ali , no canto em que havia muitas coisas de muitos detalhes e dava para sentí-los de um em um de uma só vez.

Ela, então, ficaria hospedada na casa vizinha até quando desse. O casal que morava ali brigava muito, estavam prestes a separar as escovas, as distancias e os órgãos sexuais. A mulher era tia dela, o marido era tio dele. E mesmo assim não eram primos.

E quando as noites chegavam e podia-se andar pelas estradas só os dois rumo à casa de algum parente, as conversas eram nostálgicas e esperançosas; o futuro era concreto em todas aquelas constelações de vagalumes que se misturavam às estrelas.

A simplicidade e o calendário no meio daquilo tudo, sentiam-se sós de um jeito único...

Mas foi de repente que o calendário com a praticidade de quem conta os dias deixou-a vermelha por uma pergunta escapada de um meio sorriso daqueles que mexem um só lado do rosto (o esquerdo).
-Já beijou algum lábio, Simplidade?
-(Silêncio)
-(Constelação)
-(As várias coisas que minavam em ambas as mentes)
-Nunca!

E naquela mesma noite os lábios se tocaram e quatro olhos voltaram-se para dentro, para a parte interior que abriga a calma. E eram tudo: pernas, olhos castanhos com verdes abrasileirados, eram braços unidos, eram tronco com tronco, eram árvore, eram alma - no singular como se ama. É de bom tom advertir, porém, que o calendário já havia beijado outros beijos, até mais longos que este. Mas em sonho descobriu que foi o primeiro em que seus olhos eram quatro de uma só vez e que suas mais profundas entranhas eram outras entranhas assim compartilhadas.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Novas sempre surpresas


-Professor, já tomou suco de televisão?
O homem, surpreso com a pergunta, ergueu bem as sobrancelhas, arregalou os olhos e iclinou levemente um lado da cabeça para trás. É verdade, não esperava nenhuma pergunta inteligente, ou algo que acrescentasse conhecimento no desenvolver de uma discussão quando o aluno levantou o dedo. Mas, como suco de televisão? Suco de tomate já é de se estranhar, quanto mais parafusos, fios e botões com água e açúcar...
O menino, então, ao perceber que não obteria resposta diante do constrangimento do professor em frente a trinta pré-adolescentes, disse:
-Não, o suco que eu tô falando é daqueles tipo Tang, que agora tem espuma, Frisco, que o Agostinho bebe e fala trocadilhos, o novo Maratá que a Ivete aprova... Qual desses cê prefere?
É. A juventude se recicla, iventa novos termos, os substituem de dois em dois meses, criam novas modas, ressuscitam outras de 60 anos atrás, sorriem e fazem amigos: Novas sempre verdades!
Qual experiência ou sabedoria consegue ganhar de juventude, coragem e um pouco de maluquice lúcida?

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Perdendo dentes*


Existem vários pensamentos memoráveis e inapropriados para qualquer timbre ou tímpano. Muitos deles começam com o clássico "eu queria". Dentro destes estão: aqueles que são antecedidos pela palavra "mas", os que, entre vírgulas, têm "então", e aqueles que terminam com a enigmática e óbvia interrogação - o resto são variações da mesma pergunta.
Mas então, o que eu queria?
Talvez ser a máquina odontológica que perfura o dente, em rotações inimagináveis por minuto. Perfurar, descobrir, e evitar que se perca dentes.
É dor, ferro, engenho, frio? talvez.
É meio, caminho, interior, profundidade.

ANACOLUTO


As coisas mais interessantes não fazem o menor sentido.(..)
Essa frase não é de ninguém. Nenhum cineastra famoso deixou a pérola escapar no meio de uma entrevista; nenhum poeta morto-vivo a escreveu no rodapé de uma receita de bolo.
Mas na verdade, na verdade... Ah, o que importa?

quinta-feira, janeiro 20, 2011

DAS COISAS IMPOSSIVEIS – Sem paranóia nem mistificação


Tenho 17 anos, duas irmãs, uma camisa do Bob Esponja e um futuro.
Meu futuro é quase incerto, mas faz tempo que é sempre o mesmo e há quem lhe atribua diversos adjetivos tais quais utópico e todos os seus eufemismos possíveis que são como suco de maracujá do MacDonnald´s – cada vez mais diluído em água.
Se tenho um futuro sonhador, amigos, daqueles que quase se assemelham aos sonhos impossíveis, é porque tenho propósito, que nada mais é do que sonho racionalizado, fantasia que se põe na balança.
Futuro? Que é futuro senão o desdobramento do presente?
O que há depois da pedra no caminho não é Drummond quem me diz, é o Quintana e sua utopia que antes de ser impossível é necessária para o próprio caminhar.
Tenho 17 anos e chegou o tempo em que a terceira escolha é como o terceiro olho de São Boaventura e vai muito mais além do que é tátil. É a pedra, o sedimento e o rio.
E a minha terceira escolha é tranqüilidade e quem sabe assinar uma coluna de alguma revista de circulação. Até lá, ainda terei 17 anos, duas irmãs, uma camisa do Bob Esponja e o meu futuro certo, imóvel, via lácteo)

quinta-feira, janeiro 13, 2011

LEIA-ME


Todas as vezes em que meus olhos se adentram em própria órbita, e todas as vezes que assopro a poeira dos vasos sanguíneos, penso: cadê o eu que estava aqui? O tempo comeu e foi por aqui, foi por aqui, foi por aqui, foi por aqui: Me encontro no fio de cabelo estragado ou na unha que não cresce do dedo mindinho.
E cadê o meu versículo que estava aqui? É como água que com muito esforço vira qualquer coisa a depender das minhas vírgulas esquecidas.
E então, “quem sabe um dia?”
Mas se esse verso não é meu, quem sabe um agora? E se esse tempo ainda não é meu, quem sabe o seu agora? E se essa vida não é minha, quem sabe um tempo em que a vida não era uma só vida, mas vida em conjunto?
Quem sabe ler o que não se escreve primeiro, o que não se pensa depois (mas bem em seguida)? Quem sabe ler, apenas, até o que não está escrito em nada senão em si mesmo? Quem sabe ouvir primeiro, ouvir depois; certamente saberá a hora de falar primeiro, calar-se ou fazer calar depois.
Quem sabe ler-se primeiro, bula de remédio depois, saberá calar-se ou fazer calar primeiro; falar depois ou nunca.
Quem sabe eu repita o que já disse, ou quem sabe não me leia nem antes, nem depois, nem agora. (O sujeito dessa frase pode ser eu ou você, como queira a retina).(Ou quem sabe o eu ou o você seja a mesma coisa, como queira a sinapse inicial).

sexta-feira, novembro 12, 2010

Quatro Olhos - parte I


Felicidade é ter espelhos tortos, muito tortos, que te mostram convenientemente distorcido em diversas facetas bem reais em todo o seu surrealismo. Surrealismo era existir. Surrealismo era a própria felicidade vermelha em espelhos tortos.

E assim ele era uma pessoa feliz! Com poucos e despretensiosos sonhos. E talvez por isso fosse feliz. Ou talvez por isso não parecesse feliz. Ou talvez fosse a coluna torta e o gosto pelo tempo que o faziam assim: feliz e infeliz em espelhos desiguais nos quais se via uma coluna ereta e um tempo refratado em logos anos claros.

Mas o surrealismo prestava-se ao expressionismo em sua retina. A felicidade vermelha dos dias claros era verde-amarelo-azulada na íris dos seus olhos.

Sim, tinha olhos patriotas. Mas sua pátria era o quintal daquela casa, onde o amarelo, o verde e o azul se misturavam à paisagem bucólica e tridimensional que seus olhos viam debaixo da grande árvore quase morta do extremo leste da propriedade.

Fisicamente, quase morta a infância daquele menino... Mas seus olhos não tinham idade, eram olhos sem tempo.

E eles, os olhos, carregados por seu dono, rotineiramente pedalavam nas estreitíssimas estradas de terra com estacas em preto-e-branco. As brancas do lado esquerdo eram a ida, quando os olhos voltavam-se para o céu e os ouvidos ouviam qualquer música que falasse de calma. Enquanto as estacas pretas eram a volta e os pés eram só velocidade; os olhos quase se fechavam para que os braços sentissem o banho de vento costumeiro.

Mas aquele dia pedia mais vento, mais céu, mais tempo. E a vida pedia mais vida. Pedalou-se então por estradas distantes onde só existia céu e mais nada.

E bem no meio das nuvens eis que a corrente sai das engrenagens que movimentavam as rodas da bicicleta: uma quase queda.

A bicicleta era do avô e estava velha. Mas era verde e quase cantava relembrando os tempos em que era nova e pedalava com o verdadeiro dono. E ele, o neto e atual passageiro, não se importava que fosse velha, nem se importaria se fosse incolor. Na verdade tinha afeição a coisas de outras épocas, que lhe lembravam os desejos que nunca tivera com lembranças do que nunca acontecera – E o que lhes conto é quase uma verdade, e não o contaria se assim não fosse.

Ele que por enquanto não tem nome estava em uma estrada de céu com uma casa sem telhado ao longe, uns coqueiros muito longe, e a casa de uma velha conhecida em alguma nuvem que não se podia ver. Não diria se não fosse: ele sentiu alguma coisa quando pensou na possibilidade de ao consertar a bicicleta pedalar ate a casa da moça e trocar algumas frases.

Sujou as mãos com a graxa da corrente, que não tinha culpa de ter saído de seu lugar, estava cansada de rodar pelo tempo nas ladeiras daquele azul.

Não tinha relógio, mas se tivesse diria que passaram algumas horas, ou talvez por não ter relógio eram horas no plural.

A cidade de onde vinha era muito mais longe do que o lugar de onde partira com a bicicleta verde. E a cidade não o ensinara como consertar bicicletas emborcadas no sem-nome daquele espaço.

Mas ele conseguiu. E pedalou pela casa sem teto, pelos coqueiros sem dono da curva e seguiu. Fazia muito sol. Devia passar das onze. Perdia muita água por entre os poros, mas ganhava fôlego que quase pode ser chamado de liberdade-do-que-fiz-escondido(Aquele lugar era um tanto esquisito, e ninguém o deixaria ter vindo se pedisse).

E com o pudor escondido, chegou na nuvem onde ela morava, perguntou aos vizinhos qual a casa.
Era amarela e tinha portões enferrujados, no quintal uma plantação de mandioca, e na cadeira de balanço uma velha de lenço na cabeça.

Entrou na casa por insistência da mulher. Ela tinha mãos muito boas e negras e olhos muito atentos e enrugados que ao perceberem as mãos sujas de graxa do menino, trouxeram logo um sabonete e uma toalha muito grande. A bacia de alumínio com a água do poço pediam desculpas: os canos não conduziam água para o céu fazia alguns dias de modo que as torneiras estavam de férias como o rapaz.

Então ele agradeceu e aceitou também um copo de qualquer coisa líquida. Quando perguntou por quem procurava, a velhinha que depois ficou sabendo ser a avó legítima da menina, disse que ela tinha ido para a terra onde emana leite e mel, que não ficava muito longe dali.

Ele então agradeceu mais uma vez, e a velha lhe sorriu um sorriso muito singelo cheio de dentes brancos, mas sobretudo, cheio de sinceridade - que para ele tinha vários nomes; naquela hora, porém decidiu chamar de humildade, mas no álbum de fotografias mentais preferiu chamar apenas de sorriso.

Com a bicicleta mais uma vez a pedalar, rumou-se para a terra das promessas, que era mais desenvolvida que ali e tinha a promessa da mágica internet: Não se sabia para que servia mas sabia que era preciso.
Ele desceu as ladeiras do céu – essa terra era muito mais embaixo. Desceu mais um pouco, cruzou uma rodovia cheia de rodas e de cargas e chegou.

Mas não tinha moça, não tinha nada. Era meio dia e meio dia não tinha nada, nem meio nada que é pouco tudo.

E então pedalou com o estômago de volta para os quintais de onde partira inicialmente. Não seria hoje que veria a menina-sol cheia de sardas, de cabelos loiros cheios de dúvidas, de palavras doces cheias do que sempre procurou: paciência. Não seria hoje que veria a dona Simplicidade.