segunda-feira, julho 18, 2011

A arte de traduzir-se em foto


Eu quero o olhar minucioso do fotógrafo. Aquele que calcula os ângulos, mede a luminosidade e em um clique certo, sob um foco certo, capta um segundo de beleza. Aquele mesmo que os olhos nus registram, mas que se perde em qualquer espaço entre a retina e o nervo óptico.

O olhar do fotógrafo revela o que o leigo não vê. Imprime sentimento e coisas mínimas em minimalismos sentimentais.

E uma foto tirada é um novo mundo criado. É quase um recorte, ou uma colagem de frases de opinião.

Mas se tivesse fotografia nos olhos, olharia somente para as pessoas. Então recortaria seus sorrisos e criaria mundos com os seus olhos. E todas em preto-e-branco como nuvens em céu nublado.

segunda-feira, julho 11, 2011

1+ 1 pode não ser dois




Sonho + Sonho continua sendo sonho, apenas. E as pessoas não se somam – misturam-se quando entrelaçam os dedos das mãos.

Aquilo que só existe no campo das idéias está fadado a morrer no primeiro suspiro. Para estar vivo é preciso que se queira com todas as forças, o resto é bobagem astrológica.

Não digo, porém, que é impossível ser dois. Mas difícil mesmo é 1+1 ser um só. Ai sim existe infinito, trilhares de algarismos, universo de possibilidades e pensamentos que não se escrevem.

quinta-feira, junho 30, 2011

E POR FALAR EM DRUMMOND


Dia desses perguntaram-me: “Se pudesse ser qualquer pessoa, viva ou morta, quem seria?” E eu respondi. Não digo que foi no calor do momento porque estava chovendo e aqui no Nordeste quando chove as pessoas sentem frio. Também não foi nenhuma surpresa, dado a freqüência com que perguntas desse tipo são feitas... Surpreendeu-me a minha resposta!

Quem eu queria ser? Muito fácil! Eu queria ser aquele moleque frustrado com o sorvete de abacaxi, que mais parecia uma sombra gelada de qualquer outra fruta que havia sido madura a mais ou menos três anos atrás.

Eu seria aquele moço meio torto, quase morto, o gauche da vida. E então teria pedras no meio dos caminhos, Josés para se perguntar as horas, ou simplesmente dizer: “E agora?”. Teria um coração tão grande quanto o mundo ou seria eu Raimundos sem solução!

Poderia então escrever “Moça, flor, email” e nunca ser tão óbvio ou finitamente preso, em finais de ponto e vírgula. Se pudesse ser, quem eu seria? O Carlos. Não precisava nem ser Drummond de Andrade.

E pensando bem, eu já sou gauche, sou meio torto, sou quase morto, mas sou Gustavo. Será que precisa ser Nunes Monteiro?

segunda-feira, junho 27, 2011

LIBERDADE E OUTROS VÍCIOS


Desconfio de que esteja reforçando o meu lado subjetivo a cada letra que por aqui se escreve. Desconfio também de que quebro assim todas as regras ou diretrizes que supostamente eu deveria seguir; livros dizem: “Objetividade é essencial” – mas está longe de ser essência.

Acostumei-me eu a ser fragrância, desconsiderando todos os elementos químicos que meticulosamente deveriam ser combinados. Perfumes feitos fedem. E também fedem os seres humanos, burgueses ou não. Apenas fui sendo fragrância pela livre intuição, essencialmente subjetiva e quase enigmática – eufemismo para quase nunca entendida.

Desconsiderei, portanto, que assim como o poder deve ser controlado pelo poder, a liberdade deve ser controlada por aquilo que é verdadeiramente livre: a própria liberdade, dom do Espírito, e só ela. Sou livre para mentir pensamentos, mas não posso deixar de assim proclamá-los. Eu minto verdadeiramente, depois minto que não era verdade, para depois mentir que me esqueci das mentiras e das verdades inteiras.

E os sentimentos, as idéias e as pessoas são passíveis de recriação, que também é uma forma de mentira. Criar, recriar, mentir, descobrir é ser livre. E objetividade ou subjetividade é uma questão dicotômica demais para toda essa liberdade que agora percebo. E eu confesso que detesto a falsa simplicidade das coisas dicotômicas ou a bipolaridade das pessoas simplistas – que melhor seriam descritas se fossem descobertas todas as suas inseguranças, que nada mais são do que suspiros sem liberdade.

Penso que o que falo pouco ou muito pouco é de interesse geral da nação, mas acho que tanto a insegurança das pessoas quanto as questões – só – dialéticas são apenas formas de controlar o incontrolável: os possíveis desdobramentos, também chamados de conseqüências ou bilhetes do destino. Os bilhetes, as pessoas e os pensamentos devem ser livres, por essência.

E a essência livre é o mais puro dos perfumes.

segunda-feira, junho 06, 2011

MEUS DIAS LINDOS (Porque Drummond, filho de uma mãe, já escreveu os dias lindos sem possessividade)



Tem dias que eu acordo e vejo notas musicais penduradas nas núvens. São dias realmentente muito lindos! É como se todos os olhares fossem metade bom dia, metade tranquilidade. E o remelexo quase bruto do ônibus, uma dança cósmica de batimentos cardíacos propagados pelos sete universos. As mãos que me pedem esmola parecem plumas, e quase dá para sentir o sorriso dos dedos para cada centavo que tilinta quando é fortemente agarrado.

É nesses dias que as piadas são absurdamente engraçadas – E mesmo as coisas mais sérias. É quando o riso não é transgressor, nem progressista, porque antes de ser riso é sorriso, identificação, juventude. Nos dias de notas musicais fáceis, a identidade é tão completa que nem a dúvida duvida. E os pássaros também cantam sorte em todos os fios elétricos da cidade. E se chove é uma sinfonia sintonizada de pessoas que compartilham guarda-chuvas.

Mas, se me pergunta, no fim desses dias o que eu ganho? Sono, oras! Dias lindos não se acumulam. E só são lindos porque passam, quase que simplesmente...

quinta-feira, maio 26, 2011

Contraindicado para os que não lêem seres humanos



Se existem pessoas diferentes é porque existem diferenças. E elas são simbolicamente anteriores a qualquer indivíduo – que se conheça, pelo menos.

Genética, Biologia, Sociologia, Economia, Bulimia, Anemia, Apatia? Não. As diferenças de caráter excludente são primeiras impressões. E são só isso! Quando se mergulha no outro, as semelhanças se tornam nítidas: mesmos sonhos, mesmos medos, mesmos sorrisos – diferentes ângulos, quem sabe... Clichês à parte, basta enxergar a semelhança “Ser Humano” para metade das diferenças parecerem mínimas, quase imperceptíveis.

É então que, passadas as surpresas do novo, jogar o jogo da relevância se torna necessário. O que é relevante? Beleza, inteligência? Etiqueta, inteligência? Carteira, inteligência? Sobrenome ou inteligência?

Têm coisas que se resolvem com oportunidade. Para outras existe maquiagem! E assim o mundo, cheio de pernas, anda. A “aurora é coletiva”, e “tudo marcha para a arquitetura perfeita”. Pedra ao lado de pedra – são mãos que se balançam.

E se por ti persistirem os olhares tortos, a bula deverá ser consultada. Não aquela de letras miúdas... A que se esconde em qualquer lugar perto do intestino e que grita todos os sentidos e contraindicações de que somos feitos.

terça-feira, maio 24, 2011

É COMPLICADO COMPLICAR-SE


Reprovei na anatomia dos sonhos.
Não sou muito bom em dissecar forma, separar estrutura de sentido, estudar o átomo e esquecer-se das ondas.
Ondas de mar ou de luz também me dizem respeito.
Sou infravermelho, raio-x, tsunami.

Reprovei pelo não entendimento-
Do sonho, do sentido, das minhas próprias vísceras.
Vidas de olhos e de vísceras inteiras ainda me dizem respeito.
Sou espera, promessa, cochilo breve.

E o espelho diz:
Entre as coxias e o palco há um espaço ridículo,
De homens e de olhos tortos sem refletores!

Mas acende-se um fósforo na alma e pronto: sorriso furta-cor.

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segunda-feira, maio 09, 2011

A MORTE DA BEZERRA ME INTERESSA


Nos dias muito claros, de pensamentos e nuvens brancas, qualquer movimento de folhas verdes – ou secas, que sejam – me diz respeito. É quando um cochicho de olhos semiabertos é quase tão real quanto a Teoria da Relatividade... Embora ache que há uma conspiração em cada sussuro.

O que não tem importância é quase tão divertido quanto abrir a boca enquanto se toma um banho de chuva – mesmo que não se beba um só gole d´água. E a morte da bezerra é como a pedra no meio do caminho que foi um dia notada por alguém sem destino. Não a grande pedra. Não aquela pedra. É a pedra chutada, atirada contra o pássaro, esquecida.

A morte da bezerra é a morte para o óbvio.



Obviamente!


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terça-feira, abril 12, 2011

SORRIR É UM ATO COMPLICADO


De uns tempos para cá ser feliz é tão obrigatório... Faz uns anos que o sorriso não é mais só expressão, é também mercadoria, produto – da pasta de dente, do condomíneo de casas, do carro zero kilômetros, do refrigerante vermelho e preto. As pessoas, assim como eu, são empurradas ao ato de sorrir, não importa o quão tristes ou apáticas estejam.

Mas o problema não é sorrir quando não se tem vontade, é sorrir quando se quer sorrir. Com quantos olhos se diferencia os que sorriem mesmo de felicidade? E os que usam óculos, coitados? Janelas da alma com vidro de proteção.

Se pudesse deixar algum aviso à sociedade sorriso de que sorrindo faço parte, diria: profundidade é lei – não importa se tu és riso alegre ou lágrima. Será que a verdade também vende um milhão de cópias?

domingo, abril 10, 2011

QUATRO OLHOS - parte III



Um, dois, três, quatro, cinco, escondiam-se todos e os dois sempre juntos. Um amor de bananeiras, mangueiras e dois meses de risos e promessas tão curtas quanto a vida parecia ser – e era. Final de férias, o calendário voltou para Pequenograndópoles.

E ele era vulnerável, perdia folhas, chegavam outras. Então, reencontrou alguém que não via a seis meses e também se juntaram em beijos de quatro olhos. Mas quando ele voltava às proximidas da terra de leite e mel e via Simplicidade em sua beleza quase infantil de frases gramaticalmente livres, percebia que já nao eram mais um – e que deixaram de ser sem nenhum aviso prévio.

Eles conversavam sobre quase tudo, e depois de dois CDs que o calendário fez questão de entregar à moça, seus tios assumiram que eram dois, heterogeniamente quebrados. Para vê-la então, teria que pedalar até as núvens altas ou mandar um recado via alguém que passeava em carroças de burro. Mas calendário era preguiça, ou amor a outras pétalas agora.

Foi-se um ano, e em Pequenograndópoles, a Rosa Urbana – de sobrenome, sim senhor – com quem juntava os olhos, estava fora de si desde uns tempos (ou quem sabe era ele, tanto faz!). Encurralou-o. Foi-se um ano. A rosa saiu ferida. O calendário sem algumas páginas. E quando parou o tempo, o Calendário quase parou, não fosse Simplicidade para lembrar-lhe que os dias independem das horas e que ele deveria viver mais de palavras e não apenas dos números. Não raro, o relógio se perdia, sem querer, ou as horas eram trocadas como em mágica nos pulsos do garoto. Ele nao gostava dos números... Ficava mesmo feliz quando liam a parte de trás de todas as suas folhas. O seu lado B. Simpatias, dias de santo e de trabalhador para alguns, um pouco míopes: segredo.

E agora então... Longe de mim querer encurtar a história, exaltar ou diminuir partes. Afinal, trata-se de pessoas! E as pessoas são bastante complicadas. Talvez, por isso, não tenho melhor maneira de mostrar-lhes o que aconteceu, senão com elas, as reticências.

...

Entenda-as porém como um ponto de interrogação, uma icógnita,ou um imenso espaço em branco. Ou melhor, apenas um imenso espaço. Não sei como recomeço, pois. Se fosse eu Clarice , e tivesse todas as folhes de liz do peito voltadas para a inteligência criativa que beira a exentricidade, poderia também começar com uma vírgula. Uma pequena pausa depois de tudo o que foi dito naqueles três pontos alinhados no papel. Mas não a sou.

E como também não sou Cecília poderia utilizar-me das aspas: “O amor é uma saudade constante, sem egoísmo nenhum”. E o calendário já não sabia o que amava, se era ao próprio amor, à saudade constante de trilhares de coisas juntas, ou ao egoísmo que não tinha. Amava sim, mas a sua própria existência. Passara dias sem ar com injeções de datas em suas folhas em branco. Mas era um calendário metalinguístico. Dava ao papel em branco de que era feito, a branquidão que se passava em seu conjunto inteiro.

sexta-feira, março 18, 2011

O panorama, o grito, a identidade


No retroprojetor diversas imagens passam como flashes quase instantâneos e subliminares. Há átomos radioativos que viajam com o vento; o mercúrio sobe e atinge o ponto máximo de um termômetro antigo; a água devora e tritura todo um continente; o limão triturado com águas (mineral e ardente) dentro de um liquidificador de bar; é o cantor que protesta, a artista que se despe, a Monalisa que chora.

E então o grito que grita de uma garganta negra; a pele negra ensaguentada; a pele ensaguentada no mercado; tem poeira na América Central e placas tectônicas; tem secadores e ar condicionados; mas há um ventilador e moscas. E há um rio que seca, e há um rio de bochecha e sal. Pílulas, pílulas, xarope. armas, pneus.

Milhares de pessoas espremidas; metrô, cadeia, fila para fila (de comida, de cinema, hospital). Livros e mais livros: traças. Downloads. Dinheiro. Praia. Olho multicolor; foto 3x4.

E os olhos da plateia como vagalumes tontos ao meio-dia. Mas o que é que eu penso agora? Alguém viu minha carteirinha?

quarta-feira, março 16, 2011

EU AMO NÓS: AS PALAVRAS E AS LETRAS


Mas já que se há de escrever
Que ao menos não se esqueça das inspirações involuntárias ou provocadas;
Quando se pensa em ar e pulmão,
Em vida, em palavra e poesia,
Que ao menos não se oprima com as palavras
As opiniões cotidianas
Que são peito, garra e verdade!
Relatividas, relativididas;
Conhecimento ou desconhecimento
A quem muitos chamam ignorância.

Que ao menos o que se há de escrever seja digno de ser dito, numa prisão que é um verso, ou na liberdade que é a falta de pontuação. Que se escreva sobre os meteoros e cometas do espaço que caem na inércia do tempo, ou de nós mesmos que movimentamos o tempo e a própria vida. Mas que antes de tudo se escreva. Nem que seja sobre o que escrever já que se há de escrever.

E que antes de tudo se escreva
A si mesmo,
Assim mesmo.
Escrevo – logo existo.