sexta-feira, abril 25, 2008

Falling in and out of love ...



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To make it beautiful to live.

quarta-feira, abril 16, 2008

Da Saudade


A natureza da saudadeé ambígua: associa sentimentos de solidão e tristeza - mas, iluminada pela memória, ganha contorno e expressão de felicidade. Quando Garrett a definiu como "delicioso pungir de acerbo espinho", estava realizando a fusão desses dois aspectos opostos na fórmula feliz de um verso romântico.

Em geral, vê-se na saudade o sentimento de separação e distância daquilo que se ama e não se tem. Mas todos os instantes da nossa vida não vão sendo perda, separação e distância? O nosso presente, logo que alcança o futuro, já o transforma em passado. A vida é constante perder. A vida é, pois, uma constante saudade.

Há uma saudade queixosa: a que deseja reter, fixar, possuir. Há uma saudade sábia, que deixa as coisas passarem, como se não passassem. Livrando-as do tempo, salvando a sua essência de eternidade. É a única maneira, aliás, de lhes dar permanência: imortalizá-las em amor. O verdadeiro amor é, paradoxalmente, uma saudade constante, sem egoísmo nenhum.
[Cecilia Meireles]

segunda-feira, abril 14, 2008

Desordem do mundo


Perdoa-me o leitor diser-lhe uma banalidade tão grande: o mundo está descontente. Estão descontentes os países; os indivíduos entre si; descontentes os indivíduos consigos mesmos. O mundo é uma grande casa em desordem, onde todos se sentem com o direito de gritar. Os que gritam não se entendem; e os poucos que saberiam falar proveitosamente, como poderão ser ouvidos, em tamanha confusão?

De tal modo cresceu e se generalizou o hábito da queixa e do protesto que os que sofrem em silêncio passam a ser malvistos. Como nas cenas de desastre, o mais atingido ou está morto ou geme baixinho: mas em redor dele a vizinhança vadia comenta, discutee, esbraveja e encontra uma gloriosa vingança em perder tempo com loquacidade.

Todos opinam; o prazer da opinião parece mesmo estar em proporção direta com o desconhecimento do assunto. Por isso, vamos opinar também. E sem nenhum constrangimento, já que estamos em tão boa companhia.

Pois é assim: o mundo está descontente por se achar em desordem, e não o contrário, como poderia pensar o vizinho. A tendência da Natureza, segundo dizem, é para o equilíbrio; se tudo estivesse em seu lugar, o mundo não estaria descontente.

Isto de estar em seu lugar é uma profunda preoculpação dos espíritos sensatos, em qualquer latitude, O inglês diz: "the right man in the rigth place" - e o bom brasileiro, com muito mais saber decorativo, concorda: "cada macaco no seu galho".

Aproveite-se a imagem para uma fábula, e ver-se-á o mundo qual imensa árvore, desdobrada em infinitos galhos - altos, baixos, curtos, longos, finos, grossos -, com os seus povoadores em completa desordem. Dia e noite a vasta fronde oscilará com a celeuma: no mais denso da verdura está precisamente o macaco-poeta, que gosta de mirar as estrelas; num galho desnudo, o macaco-prático, que apenas se interessa pela fruta; num ramo frágil, o macacão pesado, que aspira a certo conforto; muito elevado, o que sofre de vertigens, o que ama o Sol; e às veses , vinte e trinta num pequeno toco, e apenas um num galho colossal...

Mas, deixemos de fábula: o problema de oferecer ao homem a oportunidade que mais lhe convém para aplicação de suas qualidades de trabalho precisa ser encarado de frente, empregando-se todos os recursos obtidos por duas experiências da mesma espécie, além dos recursos particulares que se suponham mais adequados ao caso brasileiro.

É desnecessário insistir com exemplos: o barbeiro que, enquanto escanhota o freguês, vai dizendo: "Eu, se fosse o ministro de Educação..."; a datilógrafa que, entre os seus erros de ortografia, conversa como colega: "Aquele vestidinho de Alice Faye, com três babadinhos do lado de cá, ficava uma graçinha..."; o chefe da seção, rabugento e mal-criado, que não atende aos interessados e ainda responde: "Eu estou aqui porque estou, mas logo que puder vou para a roça, criar minhas galinhas!" -, todos são pessoas adoráveis, mas desajustadas. Talvez dessem, mesmo, um para ministro, outra para costureira, outro para avicultor. Mas foram mal colocados na vida, suspiram pelo que não puderam ser e, com isso, um corta o queixo do freguês, a outra faz uma correspondência detestável para o seu chefe, e o terceiro mete os papéis na gaveta e esconde a chave - sofrem com a sua neurastenia, e fazem sofrer todos que estão ao seu alcance.

Ora, quem os colocou mal na vida? Contingências da fortuna, falta de previsão dos pais ou professores - mas, sobretudo, o desconhecimento ou desprezo, do ponto de vista individual e psicológico, do problema da "vocação"; e, do ponto de vista técnico e social, do problema da "orientação profissional".

O antigo "conhece-te a ti mesmo" ainda tem aqui a sua aplicação. É pelo conhecimento de suas aptidões, das várias maneiras de combiná-las, que um jovem se pode situar na vida, entregando-se a uma atividade que ao mesmo tempo o satisfaça - por estar de acordo com a sua capacidade - e lhe permita viver dentro de um nível condigno - por estar de acordo com as oportunidades sociais, tendo, portanto, uma valorização razoável.

Mas os jovens não poderão, salvo em casos excepcionais, chegar a essa compreensão por si mesmo. Falta-lhes esperiência. falta-lhes conhecimento especializado do assunto, e - o que é mais grave - em muitos não se encontram nem entusiasmo, nem confiança, nem paciência, nem fé. Estes são os que precisam ser socorridos imediatamentepor educadores competentes, compreensivos, que queiram fazer alguma coisa neste mundo descontente, para uma gereção abalada por tantos espetáculos atrozes.
[Cecília meireles]

quarta-feira, abril 09, 2008

curta reflexão!


Felicidade: sentimento raro! O real objetivo de todas as buscas e descobertas humanas que foram impiedosamente frustradas, como um sonho que se perde num fio da vida. Nisso surgem dúvidas, as mais diversas possíveis, adequadas a cada ser pensante que faz delas existência. Será que para ser feliz é nescessário o sofrimento alheio? Sendo assim... Bem melhor ser triste que ser alegre! Só assim cada um será o próprio causador de suas próprias feridas, essas por suas vez não ferirão ninguém a não ser a si mesmo. Assim, tavez, quem sabe..., poderemos conhecer o verdadeiro significado da felicidade, conhecendo de perto o seu oposto.

segunda-feira, abril 07, 2008

Talvez..!


Não sei por que. E talvez nunca haverei de saber (existem coisas que são feitas para serem entendidas, não explicadas). Não sei o por que, mas prefiro os cantos que os meios. Não por serem mais agradáveis ou por combinarem comigo, talvez até combinem... Pelo contrário, são sujos, e as vezes fedem! É que eles, os cantos , são solitários. Também juro não saber de onde saiu a idéia de que solidão é sinônimo de tristeza... Eu juro! Li uma vez em algum lugar umas dessas frases que nos conquistam pela sua simplicidade, e que fingem não dizer nada: Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor.

Talvez os que que pensam que entre tristeza e solidão existe, por mais desprezível que seja, alguma semelhança, não conhecem o quão essencial é conhecer a si próprio. É no canto sujo e as veses fedido, que os defeitos e as qualidades se misturam como as tintas de um pintor, que na aquarela ganham vida, perdem a individualidade e na tela se revelam... Um só corpo. Um só espírito. Numa explosão de cor nunca antes vista! E, o melhor, o crítico é o próprio pintor. Se não gostou joga fora e depois recombina todas as cores para melhor o satisfazer. Conhece a ti mesmo que conquitas o mundo. Talvez eu queira conquistar o mundo. O meu mundo! Meu infinito de águas desconhecidas que abrigam mistérios...E os mistérios só têm graça se não forem questionados, portanto nao os questione! Apenas entenda que exitem coisas mágicas, mágicas mesmo. Daquelas que as palavras são muito pequenas para descrevê-las.

Existem mágicas, e os mágicos somos nós mesmos, os donos dos nossos mistérios prontos para serem desvendados! mas como ja foi citado lá em cima, os mistérios são inquestionáveis. Senão, para que viver? Se a vida é um mistério cabe a cada um interpretá-la da forma que a luva couber melhor. E as luvas? Ah... as luvas! Essas sim são mágicas! E a magia está no poder ver e não sentir, num mundo em que as coisas são sentidas mas não podem ser vistas. E as pessoas? Sentidas bem de perto, como uma lembrança ou um aperto no peito, que nem sempre paupáveis são. Espero, um dia, desvendar todos os mistérios que fazem da vida moradia. Mas lamento, estarei morto! mas se tu estiveres vivo, dou um jeito de te contar tudo... Nem que seja por uma carta anônima enviada de algum lugar desconhecido entre os demais, mas acredite... Darei um jeito! Mas se estiveres morto, daremos longas risadas dos cabelos que perdíamos com tão pequenos dinossauros!

Talvez os cantos sejam até um pouco sem graça... Talvez!

[...]


quinta-feira, março 27, 2008

[Quem Sabe um Dia]


Quem Sabe um Dia
Quem sabe um dia
Quem sabe um seremos
Quem sabe um viveremos
Quem sabe um morreremos!

Quem é que
Quem é macho
Quem é fêmea
Quem é humano, apenas!

Sabe amar
Sabe de mim e de si
Sabe de nós
Sabe ser um!

Um dia
Um mês
Um ano
Um(a) vida!

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois

Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois

domingo, março 02, 2008

Poema dialético (Murilo Mendes)


É necessário conhecer seu próprio abismo

E polir sempre o candelabro que o esclarece.


Tudo no universo marcha, e marcha para esperar:

Nossa existência é uma vasta espectação

Onde se tocam o princípio e o fim.

A terra terá que ser retalhada entre todos

E restituída em tempo à sua antiga harmonia.

Tudo marcha para a arquitetura perfeita:

A aurora é coletiva.

sábado, novembro 24, 2007

O grande golpe


73 anos, um rosto coberto de rugas, um quarto sujo e um pão velho... Isso é o que chamam de melhor idade! Quem dera os anos tivessem levado sua memória, no entanto só levaram seu dinheiro, maldito amor que gera frutos os quais roubam sua herança e te internam em qualquer asilo vagabundo. 4 pílulas a cada hora e uma enfermeira com olhos bondosos de quem torce para que o grande dia chegue. Nenhum sorriso. Nenhuma lágrima. A matemática, única coisa confiável, o dissera: são exatamente 13 balançadas da cadeira a cada minuto e um suspiro como gorjeta. Seus amigos? Velhos surdos que ouviam com paciência as artimanhas de um corajoso jovem do século passado, pelo menos não argumentavam nem contestavam. A noite sim, esta te interessava, trazia sempre a esperança de ao fechar os olhos acordar num novo mundo, quem sabe num mundo agradável, mais pensando bem, melhor ficar acordado... Vai que derrepente acorde no mundo quente!
Ainda se lembrava muito bem do dia em que foi parar naquele lugar detestável, era num sábado, mais o carro não foi para casa do seu filho mais novo, Edinaldo, onde era comum o tradicional almoço em familia. Disseram que ali, a 2 kilômetros da sua simpática casa seria melhor. E ainda se lembra da primeirra e ultima visita: vários papeis a assinar e um beijo na testa. Como amava cada um dos seus filhos, os ensinara a pescar na lagoa que hoje não tem peixes, a nadar e ate levou cada um dos filhos homens para conhecer a mocidade quando faziam 13 anos. E agora onde estavam? Quem sabe levando seus filhos homens para conhecer a mocidade quando faziam 13 anos. Como era doloroso lembrar o nome dos filhos, netos e suas datas de aniversário, que por incrível que pareça, são por eles comemoradas. Mais um dia foi palco de uma gradiosa luta de duas poderosas damas, sentia cada tiro, murro ou qualquer coisa por elas manifestada com uma alegria incrível, e quando a aparentimente mais forte deu o ultimo golpe sentio sua cabeça cir pelo ombro e uma onda anestésica de euforia envadir seu ser. Se ainda fosse carne poderia sorrir como uma criança!

quarta-feira, agosto 15, 2007

Sexy, Drugs and Rock 'n' roll


Todo dia fazia tudo sempre igual, às seis da manhã sacudia vivendo num clipe sem nexo, um pierrô-retrocesso meio bossa nova e rock 'n' roll, ideologias jorravam de montes nas estantes empoeiradas da biliblioteca, no entanto, queria uma pra viver. Foi então que num belo dia, cansada de esperar o trem das sete, resolveu mudar. Na cabeça um único objetivo : Fazer tudo o que queria fazer, ligou o rádio e... Que surpresa! Ouvio algo novo, diria até inusitado indagando a si mesmo "Ora, mais quem é ele esse tal de rock 'n' roll? ", E o aparelho, que treco mais estranho, respondeu "Pleased to meet you, hope you guess my name" e completou "Oh yeah".

De início assustou-se, mais depois só queria cantar como a cigarra canta, e desse seu canto não abria mão. As veses pegava-se pensando "Se o V de verde é o verde da verdade, 2 + 2 são 5, não é mais 4 não" pobre dessa moça, só podia estar louca, pela vizinhaça só se ouvia "Let me sing, let me swing, let me sing my blues and go" e no algue da sua agonia recitava Shakespeare. Mais foi num Domingo, sangrento domingo que de uma só tacada matou 7 moscas, por isso foi foragida pra califórnia, viver a vida com as ondas. Agora só queria curtir, "enjoy the trip" e chupando drops de aniz viver o destino de star, afinal, agora era uma femme fatale!

sexta-feira, agosto 03, 2007

Amor - Clarice Lispector


Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.


Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si, malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha enfim espaçosa, o fogão enquiçado dava estouros. O calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar a enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador. Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.


Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o tempo seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela mão do homem.


No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O homem com quem casara era um hoem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes inisíveis, que viviam como quem trabalha - com peristência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e escolhera.


Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto - ela o abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.

O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de mulher.


O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o homem parado no ponto.

A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas. Era um cego.

O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.
Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viram jantar - o coração batia-lhe violento, espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mastigava goma na escuridão. Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de sorrir, sorrir e deixar de sorrir - como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada - o bonde deu uma arrancada súbita jogando-a desprevenidada para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão - Ana deu um grito, o condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava - o bonde estacou, os passageiros olharam assustados.

Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não usada, ressurgira-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o bonde deu a nova arrancada de partida.

Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás para sempre. Mas o mal estava feito.

A rede de trico era áspera entre os dedos, não íntima mas como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas na rua eram periclitantes, que se mantinham por um mínimo equilíbrio à tona da escuridão - e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.

O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na rua Voluntários da Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto. Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.

Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão, separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.

Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava tudo a atingia com um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.
Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pode localizar-se. Andando um pouco mais ao longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.
Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.
A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.
De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.
Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.

Um movimento leve e íntimo a sobressaltou - voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.

Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela começava a se aperceber.

Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O assassinato profundo. E a morte não era o que pensávamos.

Ao mesmo tempo que imaginário - era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que precedesse uma entrega - era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.

As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumadas... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos, enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve mêdo do Inferno.

Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo. Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor. Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria - e via o Jardim em torno de si, com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia apareceu espantado de não a ter visto.

Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua alma batia-lhe no peito - o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava - que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se trêmula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado - amava com nojo. Do mesmo modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo.


Como se soubesse de um mal - o cego ou o belo Jardim Botânico? - agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispou-se. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. O sangue subiu-lhe ao rosto, esquentando-o. Deixou-se cair numa cadeira, com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?

Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu coração se enchera com a pior vontade de viver. Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em tortura ela parecia ter passado para o lado dos que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo - e que nome se deveria dar à sua misericórdia violenta? Seria obrigada a beijar o leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.

Humilhada, sabia que o cego prefereria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.

Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha. Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos.

Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.
Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as outras. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros.

Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana predeu o instante entre os dedos antes que ele nunca mais fosse seu.

Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruto que olhava pela janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante, parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre os frutos do Jardim Botânico.
Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando com seu marido diante do café derramado.
- O que foi?! gritou vibrando toda.
Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:
- Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.
Mas diante do estranho rosto de Ana, espio-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.
- Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.
- Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.
Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural, segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.

Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteva-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.

quarta-feira, julho 18, 2007

Carta de confissão



Faz muito tempo que não sinto medo. Este porém, foi um tanto... Peculiar, diria um medo mais espiritual do que carnal, sem pés gelados ou suor frio, mas apenas um leve desconforto e atenção aos mínimos ruidos acompanhados por batimentos acelerados. Alucinações quem sabe! E só de me lembrar da terrível sensação de perda sinto uma enorme inveja penetrar em minha mente, sinto injeva de Macabéa. Ha como queria apenas existir, e na sutileza sentir conforto; a chuva que cai sobre janelas fechadas deixa o ambiente seco porem úmido, o ar ja nao é tão abundante quanto o da primavera passada, que saudades que tenho. Ouço gargalhadas, de puro praser e ódio. Alucinações quem sabe!

Pedaços de silencio brotam do teto e caem em cima da pobre mão direita, desculpem-me, as linhas que aqui se seguiam foram borradas e se foram borradas não queria ser vistas. Como que envolvido por uma densa nuvem de poeira ponho-me a tossir, uma tosse seca da qual meus frágeis pumões se recusam a aceitar. Ha que saudades que tenho da primavera! Após longos minutos de puro pigarro, vejo mais uma miserável mancha vermelha como fogo sobre meu lenço azul, me recuso a acreditar e de novo me embebedo do mesmo medo que suga minhas mais escondidas esperanças. Com uma lágrima nos olhos, confesso, é DELAS que tenho medo, vermelhas como o inferno me apresentam a morte a cada dia. Tenho medo de morrer, inrônicamente... Morrer pela VIDA.