quinta-feira, agosto 05, 2010

Ode à Maria Que Se Perdeu (Parte final)



Quem sabe ainda soa como garotinha, arrancando cabelos das bonecas mudas telepáticas de pensamentos paralíticos. Seus pensamentos - não menos paralíticos - eram agora de uma mulher de 18 anos recém completos que há exatas 12 horas havia saído pelo mundo com algumas roupas e o que sobrara da boneca, a quem proferiu sérias maldições depois de se dar conta de que as bonecas também pesam. Carregava também as lembranças, algo que ninguém poderia modificar - como modificar o que já passou?

Mas o que eram algumas gramas de boneca comparadas ao peso de sua própria existência? talvez por pesar demais esta última, a boneca foi a primeira a se perder.

Poucos sabem (é que não se falam muito sobre orfanatos por ai) mas ao completar a maior idade os órfãos ficam de órfãos de novo de proteção. Para não citar a responsabilidade, o lar, a comida, o governo, todos os abandonam e a instituição com a mesma facilidade trata de os substituir. Os bebês nascem e os órfãos brotam. E brotam como plantas em guerra por um pouco de luz ainda que seja elétrica.

Trabalhar? E no fim do dia... Deitar em que colchão se aquele não era seu. Dormir em que travesseiro se aquele também não lhe pertencia? Que teto? Sua casa não tinha teto, não tinha nada...

É bem verdade, todos tomam o caminho de ida, mas a grande maioria tem o conforto do para onde voltar. Mas trata-se de Maria, e Maria não é grande parte... Sorte ou azar, quem sabe?

Sorte. Ela não sabia o que era azar, sua vida toda fora assim. Então... Sorte! Podia ver as pedras tortas da rua - sem as gramas da boneca e da sua consciência - e sentia-se um pouco livre, um pouco presa no que também não sabia, mas que costumamos chamar de incerteza. E de incertezas passou-se o dia.

Os carros buzinavam para a mulata com cara de fome, lágrimas e nenhum amigo. Alguns gritavam altas expressões, mas não ecoavam pelos neurônios cegos de Maria, o coração não sentia nem pressentia, portanto. Mas se alguem falava palavras disfarçadas de beleza: Susto, dedos médios, Palavrões!

E assim como os faróis acendeu-se a noite e ela se fez Maria entre as três que brilhavam ao longe na escuridão dos céus. Confundida entre os faróis e as estrelhas, acabou por se encontrar no meio termo onde o vento fluido de espírito sopra para todas as direções e pode-se colorir o dia com poeiras distorcidas de palavras.

E assim Maria se perdeu.

E assim nós perdemos Maria.

6 comentários:

Anônimo disse...

Agora digo com convicção: Que bom que eu não ousei tentar terminar esse texto! Se o tivesse feito eu não teria me [pre]enchido com essas palavras tão bem escolhidas e organizadas formando tamanha obra de arte!

Acho incrível como vc ainda consegue me surpreender sempre. Parece que a cada dia q te conheço vejo o quanto vc é infinito, seja em qual for o aspecto. E a cada vez que me perco em suas palavras eu me encontro em algo novo dentro de mim. Tá, foi clichê, mas é a verdade. E a minha verdade mtas vezes é dita em clichês, por falta de escolha de palavras.

A sua verdade é sempre dita no não dito. E isso me deixa mais fanático por vc e sua escrita.

Abração de seu irmão fã de carteirinha.

Jenny Paulla disse...

muito bom,muito bom mesmo!
a realidade de Maria grita.

Larissa Oliveira disse...

Guga! Parabéns cara! Cada texto seu mostra um lado diferente das coisas, e pegando algumas palavras do comentário do nosso amigo anônimo: " E a cada vez que me perco em suas palavras eu me encontro em algo novo dentro de mim." E falando de Maria, nem venha dizer que essa é a última parte do conto. Continue falando sobre ela, é curioso. Um abraço cara cultura.

Guilherme Lombardi disse...
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Isabellita ;) disse...

eii, velhooooo... muito legal mesmo!
continua sempre escrevendo, vc vai longe! ;*

Gustavo Monteiro disse...

http://entreascoxiaseopalco.blogspot.com/2010/04/maria-maria-luz-da-noite-e-estrela-do.html

Essa é a primeira parte! :D