segunda-feira, outubro 31, 2011

Cantiguinha de Domingo



  Não escrevo mais uma linha só de bom agrado.
  Talvez foi a tristeza que eu perdi,
  Talvez foi a tristeza que se perdeu.

  Talvez eu faça uma cena
  Eu faça um samba
  Eu fale um poema;

  E eu rime e eu cante
  Hoje mais que antes.
  Sem saudade, sem vontade, sem problema.

  Talvez nem ligue.

  (E esse meu dom de terminar como se não tivesse terminado, como se já tivesse falado das flores e das cortinas que se abrem)

  Abre as cortinas pra mim,
  Que a andorinha está passando
  Que o dia não costuma esperar.

  Abre as cortinas e as coxias pra mim,
  Que Deus gosta de pregar peças
  Que o que é de bem não se esconde
  E não tem palco nem palhaço que não conte.

  Estou talvez a ouvir uma pitanga, enquanto a vida passa junto à nuvem. Pensando que o tempo é mesmo bom e o que o sol é um solo de xilofone. E o corpo e a alma seguem um estatuto da felicidade que ninguém disse. Minha vontade se conta e se distribui com o vento. O mesmo que me leva, que me rouba, que me deixa sem chapéu.


.

2 comentários:

Jenny Paulla disse...

Eu comecei dançando na cantiga e fiquei paralisada com as palavras finais. Um deleite!

Anônimo disse...

Vou te dar um dos bons motivos de eu te considerar genial, dono de um poder literário fantástico.

Você não é muito chegado a versos (metricamente falando). Prosa é seu prazer, desde sempre. Prosa curta, concisa. Daí você surge com um "prosema", que de início soa como um sambinha no pé de fundo de quintal, comum, simples e sadio.

Porém, você ressurge com dois toques prosaicos.

O primeiro, um tanto metalinguístico (tomando como referência o próprio nome do blog), abrindo alas para o desenrolar do cerne poético do texto.

O segundo, aquele grand-finale que estoura no âmago do leitor, este que descobre a sensação que o texto lhe dará.

Por fim, a partir da simplicidade, vc acaba traçando um belíssimo retrato de uma tarde de domingo. Muito bom!

És alquimista, irmão!

abração!